Mais sensível para identificar infecções associadas ao câncer do colo do útero, o exame está chegando gradualmente à rede pública e pode ampliar para cinco anos o intervalo entre os rastreamentos. Entenda quem deve fazê-lo, como funciona e o que acontece quando o resultado é positivo.
A prevenção do câncer do colo do útero está passando por uma das mudanças mais importantes dos últimos anos no Brasil. O exame de Papanicolau, conhecido por gerações de mulheres como o preventivo, começa a dividir espaço com uma tecnologia capaz de identificar a presença de tipos de HPV associados ao câncer antes mesmo que apareçam alterações nas células.
O novo protagonista dessa estratégia é o teste molecular de DNA-HPV, incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e adotado como principal método de rastreamento nas diretrizes brasileiras atualizadas em 2025.
A diferença não está apenas na tecnologia utilizada. Ela muda a forma de acompanhar a saúde do colo do útero, a frequência dos exames e, potencialmente, o acesso à prevenção.
Segundo o Ministério da Saúde, em atualização publicada em 28 de outubro de 2026, o teste já estava disponível em pelo menos um município de 26 unidades da Federação. A implantação continua gradual e, portanto, ainda não significa que todas as unidades básicas de saúde ofereçam o procedimento.
Para as mulheres, a novidade traz perguntas importantes: o Papanicolau vai acabar? Quem precisa fazer o teste? Cinco anos sem repetir o exame é realmente seguro? E o que significa descobrir que o HPV está presente no organismo?
O que é o teste de DNA-HPV e por que ele representa uma mudança?
O HPV, sigla para papilomavírus humano, é um grupo de vírus transmitidos principalmente pelo contato sexual. Existem diferentes tipos, e alguns deles estão associados ao desenvolvimento de câncer, especialmente do colo do útero.
A maior parte das infecções é controlada naturalmente pelo organismo. O problema aparece quando determinados tipos de alto risco permanecem por muito tempo e favorecem alterações celulares que, sem acompanhamento adequado, podem evoluir para lesões precursoras e câncer.
É justamente nesse ponto que o novo exame faz diferença.
Enquanto o Papanicolau procura alterações nas células do colo do útero, o teste molecular busca o material genético de tipos de HPV considerados oncogênicos, ou seja, associados ao risco de câncer.
Isso permite identificar uma infecção de risco antes que ela provoque alterações celulares detectáveis pelo exame tradicional.
Entre os tipos investigados estão o HPV 16 e o HPV 18, associados a uma parcela importante dos casos de câncer do colo do útero.
O DNA-HPV não é, portanto, um exame que confirma a existência de câncer. Sua principal função é identificar a presença de vírus de alto risco e ajudar a definir quem precisa de investigação ou acompanhamento mais próximo.
O que muda na frequência dos exames preventivos?
Uma das principais mudanças é o intervalo recomendado entre os testes.
No rastreamento tradicional com Papanicolau, a orientação para mulheres de risco habitual é realizar dois exames iniciais com intervalo de um ano. Se ambos apresentarem resultados normais, os próximos podem ser feitos a cada três anos.
Com o DNA-HPV, a recomendação passa a ser de cinco anos após um resultado negativo, conforme as diretrizes brasileiras para pessoas elegíveis ao rastreamento.
À primeira vista, esperar mais tempo pode causar insegurança. Mas o intervalo maior não significa abandonar a prevenção.
O teste molecular possui maior sensibilidade para identificar infecções por HPV de alto risco e oferece maior segurança sobre o baixo risco de lesões relevantes após um resultado negativo.
Isso permite espaçar as coletas sem exigir que todas as mulheres retornem anualmente apenas para repetir o rastreamento.
Existe, porém, uma diferença essencial: o intervalo de cinco anos se aplica ao rastreamento de rotina após um DNA-HPV negativo, não a todas as situações de saúde ginecológica.
Pessoas com histórico de alterações importantes, imunossupressão, resultados positivos ou sintomas podem precisar de acompanhamento individualizado.
Quem deve fazer o novo exame pelo SUS?
O público prioritário é formado por mulheres de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual.
A recomendação também contempla outras pessoas com colo do útero, incluindo homens trans e pessoas não binárias, quando atendem aos critérios clínicos de rastreamento.
A faixa etária foi definida considerando a evolução natural da infecção pelo HPV e o período em que o rastreamento oferece benefícios importantes na identificação de lesões que podem ser tratadas antes de se transformarem em câncer.
Antes dos 25 anos, as infecções transitórias são frequentes e muitas desaparecem espontaneamente. Realizar exames sem indicação pode levar a investigações e procedimentos desnecessários.
Depois dos 60 anos, um resultado negativo de DNA-HPV pode permitir o encerramento do rastreamento rotineiro, conforme as condições estabelecidas nas diretrizes. Isso não significa que toda mulher nessa faixa etária deva interromper os exames automaticamente.
Mulheres com HIV, outras condições de imunossupressão ou histórico de lesões cervicais de alto grau podem precisar de protocolos diferentes.
Por isso, a idade não deve ser analisada isoladamente. O histórico de saúde também importa.
O Papanicolau vai deixar de existir?
Não imediatamente.
O Papanicolau continua disponível no SUS e permanece como uma alternativa segura e eficaz nas localidades onde o teste molecular ainda não foi implantado.
Além disso, a citologia pode continuar sendo utilizada em etapas de investigação após determinados resultados positivos do DNA-HPV.
A diferença é que, no novo modelo, o exame molecular se torna o método principal de rastreamento, enquanto o Papanicolau passa a ter um papel mais direcionado em situações específicas.
Para quem mora em uma cidade onde o novo teste ainda não está disponível, a recomendação é não adiar a prevenção aguardando sua chegada.
O exame oferecido atualmente pela rede de saúde continua tendo valor e deve ser realizado conforme a orientação profissional.
Como funciona a coleta do DNA-HPV?
Para muitas mulheres, o procedimento será familiar.
A amostra pode ser coletada por um profissional de saúde durante o atendimento na unidade básica. O material obtido é encaminhado ao laboratório, onde será analisado para identificar a presença de DNA de tipos de HPV de alto risco.
Uma possibilidade importante é a autocoleta.
Em situações previstas pelo protocolo, a própria mulher poderá realizar a coleta de uma amostra vaginal, seguindo as instruções recebidas de um profissional de saúde.
Essa alternativa pode ajudar a reduzir barreiras enfrentadas por quem sente vergonha, desconforto ou dificuldade de acesso ao exame ginecológico convencional.
Mas há um cuidado importante: a autocoleta não significa que qualquer kit comprado na internet possa substituir o rastreamento oferecido pelo SUS.
A técnica, o material utilizado, a análise laboratorial e o acompanhamento dos resultados precisam fazer parte de um procedimento validado.
Também não significa que uma avaliação ginecológica deixará de ser necessária quando houver sintomas ou resultados que exijam investigação.
O que significa receber um resultado positivo para HPV?
Talvez essa seja uma das informações mais importantes de toda a mudança.
Um teste positivo para HPV não significa que a mulher esteja com câncer.
O resultado indica que foi identificado material genético de um tipo de vírus associado ao risco de desenvolvimento da doença.
Na maior parte das pessoas, as infecções por HPV desaparecem naturalmente. Algumas, porém, persistem e precisam ser acompanhadas porque podem provocar alterações no colo do útero.
A conduta depende do tipo de HPV detectado e dos resultados de eventuais exames complementares.
Quando o teste identifica HPV 16 ou 18, as diretrizes preveem encaminhamento para colposcopia, exame que permite observar detalhadamente o colo do útero.
Quando são identificados outros tipos de HPV de alto risco, pode ser utilizada uma análise citológica complementar para definir a necessidade de investigação.
Em determinadas situações, o acompanhamento inclui a repetição do teste após 12 meses.
O mais importante é não interpretar o resultado isoladamente nem abandonar o acompanhamento.
Também é fundamental compreender que um resultado positivo não revela quando a infecção aconteceu. O HPV pode permanecer sem manifestações durante meses ou anos. Por isso, a descoberta do vírus não comprova uma infecção recente nem infidelidade em um relacionamento.
O teste já está disponível em todas as cidades?
Ainda não.
Na atualização divulgada pelo Ministério da Saúde em 28 de outubro de 2026, a estratégia já havia alcançado 26 unidades da Federação, com 153 mil amostras coletadas entre 2025 e 2026.
Do total informado, 93 mil amostras haviam sido processadas em 2026, das quais 9.904 apresentaram resultado positivo para HPV de alto risco.
Esses números representam resultados da implantação do programa e não devem ser interpretados como a proporção de mulheres brasileiras com HPV ou câncer.
Na mesma atualização, o Espírito Santo ainda não havia iniciado a realização dos exames pela nova estratégia. Mesmo nos demais estados, o atendimento estava concentrado em municípios e serviços que já haviam organizado a coleta, o processamento laboratorial e o acompanhamento.
A maneira mais segura de descobrir se o teste está disponível na sua região é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência e perguntar qual método de rastreamento está sendo oferecido.
A vacina contra o HPV continua sendo necessária?
Sim. E continua tendo um papel essencial.
O exame de DNA-HPV ajuda a identificar infecções de risco. A vacinação procura prevenir infecções por tipos de HPV contemplados pela vacina.
São estratégias complementares, não concorrentes.
No calendário do SUS, a vacinação de rotina contra o HPV é indicada para meninas e meninos de 9 a 14 anos, em dose única. Existem recomendações específicas para outros grupos, incluindo pessoas imunocomprometidas e determinadas situações de maior vulnerabilidade.
Mesmo quem já recebeu a vacina deve seguir as orientações de rastreamento quando atingir a faixa etária indicada.
O uso de preservativos também contribui para diminuir o risco de transmissão do HPV e de outras infecções sexualmente transmissíveis, embora não elimine completamente a possibilidade de contágio.
A prevenção mais eficaz combina vacinação, informação, rastreamento adequado e acesso à investigação quando necessário.
E se aparecerem sintomas antes do próximo exame?
A recomendação de esperar cinco anos após um teste negativo não deve ser confundida com a orientação de ignorar alterações no próprio corpo.
O rastreamento é destinado principalmente a pessoas sem sintomas. Quando existem sinais suspeitos, a necessidade é de avaliação clínica, independentemente da data do último exame.
Sangramento após a relação sexual, sangramento fora do período menstrual, perda de sangue depois da menopausa, corrimento persistente com sangue ou odor incomum e dor durante as relações merecem atenção.
Essas manifestações podem ter diferentes causas, muitas delas não relacionadas ao câncer. Ainda assim, precisam ser investigadas.
A ausência de sintomas também não significa necessariamente ausência de alterações, porque as lesões precursoras do câncer do colo do útero frequentemente não causam manifestações perceptíveis.
É por isso que o rastreamento continua sendo tão importante.
Uma tecnologia melhor também precisa chegar a quem mais necessita
A chegada do DNA-HPV representa uma mudança relevante na prevenção do câncer do colo do útero. Mas a tecnologia, sozinha, não resolve todos os desafios.
Para que seus benefícios cheguem à população, será necessário garantir coleta acessível, análise laboratorial, comunicação dos resultados, encaminhamento para exames complementares e tratamento oportuno quando indicado.
Uma mulher que recebe um resultado positivo e não consegue concluir a investigação continua exposta a riscos que poderiam ser reduzidos com um atendimento organizado.
O desafio da saúde pública, portanto, vai além de oferecer um exame mais sensível. É construir um percurso de cuidado no qual nenhuma etapa importante seja perdida.
Para quem está com o preventivo atrasado, a orientação prática é simples: procure a UBS, informe seu histórico de exames e descubra qual método está disponível.
A mudança mais importante não é apenas fazer um novo teste. É identificar riscos no momento certo e garantir que cada mulher tenha acesso ao acompanhamento de que realmente precisa.
Fontes e referências
Ministério da Saúde — 28 de outubro de 2026. Teste para detecção precoce do câncer do colo do útero já está disponível em 26 estados do país.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2026/outubro/teste-para-deteccao-precoce-do-cancer-do-colo-do-utero-ja-esta-disponivel-em-26-estados-do-pais
Instituto Nacional de Câncer (INCA). Detecção precoce e diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero.
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/controle-do-cancer-do-colo-do-utero/acoes/deteccao-precoce
Ministério da Saúde — Diretriz brasileira, 2025. Rastreamento do Câncer do Colo do Útero.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/r/rastreamento-cancer-do-colo-do-utero/view
Ministério da Saúde. HPV: transmissão, prevenção e vacinação.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hpv
Conteúdo informativo baseado nas diretrizes oficiais consultadas até 1º de novembro de 2026. Não substitui avaliação individual por profissional de saúde.
